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24/09/2008

Na ONU, Lula critica mercados e Bush, créditos de Daniel Bergamasco

Presidente defende multilateralismo para regular os mercados globais e diz que esperava mais do discurso de americano. Brasileiro ataca anarquia especulativa e o fundamentalismo de mercado na Assembléia Geral em Nova York.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ontem, na abertura da 63ª Assembléia Geral da ONU, maior participação de órgãos multilaterais na regulação dos mercados financeiros. Ele fez críticas ao que chamou de "anarquia especulativa" e ao breve comentário sobre a crise feita pelo presidente dos EUA, George W. Bush, o segundo líder a discursar.

"Eu lamentei, porque eu imaginei que o presidente Bush, na última aparição dele nas Nações Unidas, (...) falaria um pouco da crise econômica, ou seja, o que o governo americano pretende fazer", disse.

"Mas ele fez a opção por voltar a falar de terrorismo e eu, obviamente, como sou defensor da liberdade dos povos e da soberania dos discursos dos presidentes, eu fui obrigado, então, a ficar quieto. Eu esperava que ele fosse falar da crise econômica, que eu acho que era a coisa mais importante neste momento, que ele pudesse citar a dificuldade que está encontrando na Rodada Doha, mas de qualquer forma, gente, cada um faz o seu pronunciamento."

Discursando logo após a fala de abertura do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, Lula criticou a desregulamentação do mercado financeiro e pediu mais autoridade para organismos econômicos supranacionais (como o Banco Mundial) "para coibir a anarquia especulativa", já que, para ele, "a ausência de regras favorece aventureiros e oportunistas, em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores".

"A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial.

As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política. Somente a ação determinada dos governantes, em especial naqueles países que estão no centro da crise, será capaz de combater a desordem nas finanças internacionais", afirmou o presidente.

Lula usou o pedido de esforços conjuntos no combate à especulação desenfreada para defender maior cooperação entre os países, para que se encontrem soluções para outras crises mundiais, como a energética e a ambiental. Ele também voltou a defender a ampliação do Conselho de Segurança da ONU, o álcool de cana-de-açúcar, a Rodada Doha e o estreitamento entre nações do hemisfério Sul em parcerias e acordos que não necessariamente envolvam os países desenvolvidos do Norte.

Imigração

Suas críticas mais contundentes, entretanto, foram sobre a política mundial de imigração. O presidente não citou nominalmente a Diretiva de Retorno, lei aprovada pela União Européia em junho que estabelece punições mais rígidas a imigrantes ilegais, mas se referia a ela.

"O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo. E com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas -e até racistas- que nos fazem evocar -temerosos- tempos que pensávamos superados."

Fonte: Folha de São Paulo (24/9/2008



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